Nos últimos 50 anos, as chamadas economias
em desenvolvimento alcançaram níveis expressivos de industrialização e
urbanização, formando uma classe alta nacional e uma classe média de
assalariados com renda relativamente elevada. Esse momento pode ser
compreendido através de dois pressupostos: a participação do Estado como
empresário e a atração de empresas transnacionais.
Após a década de 1950, ocorreu no Brasil o
processo de internacionalização da economia, com grande participação do Estado
como empresário e no desenvolvimento de infraestrutura (transportes, energia,
portos) e políticas de incentivos fiscais. Todos esses fatores, aliados à
disponibilidade de mão de obra barata, mercado consumidor crescente e acesso a
matérias-primas e fontes de energia, atraíram empresas transnacionais para o
território brasileiro. Houve uma grande ampliação do parque industrial,
principalmente indústrias de bens de consumo duráveis (automóveis e
eletrodomésticos).
O país conheceu a sua industrialização
tardia, com um sistema produtivo tradicional que considerava a capacidade de
produção e os grandes parques industriais como fundamentos para a atividade industrial.
Esse padrão concretizado com o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) foi
ampliado pela ditadura militar (1964-1985). Os militares criaram obras
estruturais em diferentes regiões brasileiras, a destacar as usinas
hidrelétricas e as rodovias. Muitos municípios do interior do estado de São
Paulo começaram a desenvolver seus distritos industriais. Durante a década de
1970, ocorreu o “milagre econômico brasileiro”, que elevou o país à posição de
8ª economia mundial no ano de 1973, com taxas anuais de crescimento em torno de
10%.
No caso brasileiro, o modelo adotado trouxe
crescimento econômico para o país, mas não foi capaz de promover o
desenvolvimento econômico regional. O aumento de renda per capita de um país
nem sempre representa avanços na qualidade de vida. O crescimento que o Brasil
obteve, principalmente durante o período correspondente ao regime militar,
construiu um cenário técnico e logístico para o desenvolvimento, mas não o
privilegiou.
A partir da década de 1980, ocorreu o
esgotamento da capacidade do Estado em promover o desenvolvimento industrial -
fim do Estado empresário - devido às políticas econômicas mal sucedidas que
aumentaram a dívida externa e a inflação. No plano externo, os países
desenvolvidos começaram a adotar medidas neoliberais, isto é, reduzindo o papel
do Estado na sua participação em determinados setores econômicos.
O Brasil iniciou, a partir da década de
1990, um acelerado programa de abertura econômica conduzido pelo governo Fernando
Collor. Através da redução de alíquotas de importações, desregulamentação do
Estado, privatizações das empresas estatais e diminuição de subsídios, mudanças
profundas foram implementadas na estrutura industrial do país. Apesar de
estimular a competitividade, muitas pequenas e médias empresas não tiveram
suporte técnico e financeiro para se adaptarem a essas transformações. Até os
dias atuais, a principal dificuldade enfrentada pelos pequenos e médios
empreendedores no Brasil é que os investimentos em tecnologia e o crédito
necessário para a efetuação de qualquer base de estruturação produtiva ainda
dependem do resguardo estatal. Enfim, o país abraçou o neoliberalismo econômico
como política de Estado.
Seus efeitos foram positivos para alguns
setores, que se tornaram mais competitivos, mas nocivos para outros, devido à
falta de credibilidade das instituições envolvidas nesse processo e pela
maneira como foram conduzidas algumas políticas públicas, principalmente no que
tange às privatizações. A falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento,
essenciais para o desenvolvimento econômico de uma nação, também não foram
privilegiados.
Em 1991, Brasil, Argentina, Uruguai e
Paraguai assinaram o Tratado de Assunção, que fundou o bloco econômico Mercosul
(Mercado Comum do Sul), para por fim a algumas barreiras alfandegárias e
fomentar políticas econômicas entre os países membros. A criação do bloco
representou mais uma etapa da abertura econômica brasileira, ainda que a
integração permanecesse restrita aos países vizinhos e com os quais o Brasil já
detinha muitos laços comerciais.
As transformações decorrentes das políticas
do governo Collor introduziram no país algumas ideias neoliberais, que podem
ser sintetizadas como sendo uma redução da participação do Estado como
regulador da economia e maior liberdade de atuação de empreendedores privados e
do capital internacional. A curta passagem de Itamar Franco como presidente,
após o impeachment de Collor em 1992, ficou caracterizada como
uma preparação para o Plano Real, que culminou na eleição do sociólogo e
professor Fernando Henrique Cardoso em 1994, um dos idealizadores desse
projeto.
Na esfera ideológica, FHC, como ficou
conhecido o ex-presidente, buscou uma política nitidamente sintonizada com as
práticas neoliberais, acelerando o processo de privatizações e buscando
descentralizar a administração em diversos segmentos da sociedade. A política
de juros altos – o Brasil até os dias atuais pratica as maiores taxas de juros
do mundo – foi fortalecida para impedir a desvalorização do Real e combater a
inflação. Com os juros altos, o país poderia atrair uma maior quantidade de
dólares para o mercado brasileiro. Com mais reservas em dólares, o dinheiro
brasileiro ficava relativamente valorizado e o país também ganhava
confiabilidade junto aos credores internacionais.
Infelizmente, nem todo investimento que
chegou até o Brasil naquele momento foi produtivo, isto é, aquele que atravessa
de alguma maneira uma cadeia econômica de produção, seja na indústria, na
agricultura ou outro segmento qualquer. Muitos capitais que ingressaram no
território brasileiro foram meramente especulativos: nada produziram senão
rendimentos para banqueiros e investidores internacionais.
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