ESTADÃO
Favelas do Rio ainda são sinônimo
de estigmas
Estudo dos anos 1960 publicado no 'Estado' mostrava que comunidades eram vistas como
algo a ser combatido; 50 anos depois, visão não mudou
09 de dezembro de 2012 | 2h 02
ANTONIO PITA / RIO - O Estado de S.Paulo
De espaço de pobreza extrema e marginalidade ao centro de uma economia
dinâmica, que movimenta R$ 13 bilhões por ano. Em 50 anos, as favelas
cariocas passaram por grandes transformações, mas ainda não perderam o
estigma de ilegalidade e exclusão que acompanha seus moradores.
A conclusão é do mais recente estudo sobre o tema, Favelas Cariocas Ontem e
Hoje, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que analisa a evolução
dessas comunidades desde 1960. O livro será lançado na terça-feira no Rio.
O ponto de partida para as análises da obra é uma pesquisa publicada naquele
ano pelo Estado - a primeira do gênero. Até hoje considerado um marco,
Aspectos Humanos da Favela Carioca consumiu 3 anos de pesquisas, entrevistas
com moradores de 16 favelas do Rio e análise de dados do Censo. O resultado foi
publicado em dois cadernos do Estado, com 88 páginas, que serão reproduzidos
no livro.
Favelas Cariocas Ontem e Hoje reúne artigos com análises históricas. Em 1950,
eram 105 favelas com cerca de 280 mil moradores. Hoje, o Rio tem mais de 760
favelas com cerca de 1,4 milhão de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa do Instituto Data Popular aponta que
66% dos moradores de favela são da classe C, com renda per capita de R$ 291 a
R$ 1.019. Nas classes A e B, com renda acima de R$ 1.020, são 13% - contra 1%
em 2001.
"As favelas sempre foram vistas como local de criminalidade e precariedade,
ocupação ilegal e provisória. Hoje, muitos moradores têm títulos de propriedade,
pagam impostos, melhoraram de renda, mas ainda são associados a esses
estigmas", afirma o pesquisador e um dos organizadores do livro, Marco
Antonio Mello, da UFRJ.
À época do primeiro estudo, a percepção dominante na sociedade era de que as
favelas eram uma anomalia a ser combatida. Apenas 37% das casas eram de
alvenaria, um terço dos barracos tinha acesso a água encanada e 58% das casas
tinham geladeira.
"Era tudo de barro", lembra Natália de Souza, de 50 anos, que há mais de 30
anos chegou à Favela Dona Marta, na zona sul. Ela até hoje não possui geladeira
nem TV. A água falta a cada dois dias. A favela é considerada modelo pela
prefeitura. À primeira vista, os R$ 27,7 milhões investidos se restringiram à
parte baixa e mais visível do morro. No alto, onde Natália mora, a
transformação urbanística não chegou.
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